A reificação do corpo da mulher como ferramenta de dominação e poder

As sucessivas violências contra mulheres que têm ocupado o noticiário brasileiro revelam um padrão que vai além da brutalidade dos fatos isolados. Casos de feminicídio cometidos por parceiros ou ex-companheiros, estupros coletivos e episódios em que vítimas de violência sexual enfrentam obstáculos institucionais para acessar direitos previstos em lei expõem algo mais profundo: a persistência de um sistema que vigia, regula e pune corpos femininos. Quando instituições que deveriam proteger reproduzem julgamentos morais ou negligência, a violência deixa de ser apenas individual e passa a refletir uma engrenagem social de controle.

Os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, ajudam a dimensionar esse cenário. O Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, o maior número desde a criação da tipificação penal em 2015, o que equivale a cerca de quatro mulheres assassinadas por dia. No mesmo período, foram contabilizados 87.545 casos de estupro, também o maior número da série histórica. A maioria das vítimas é composta por mulheres e meninas, muitas delas com menos de 13 anos, e os crimes ocorrem, em grande parte, dentro do espaço doméstico ou em relações de intimidade.

O perfil das vítimas reforça o caráter estrutural dessa violência. O anuário aponta que aproximadamente 64% das mulheres assassinadas em feminicídios são negras, e que cerca de 80% dos crimes são cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Esses números revelam que a violência de gênero não é um fenômeno episódico. Ela está profundamente enraizada nas relações sociais e atravessada por desigualdades históricas de raça, classe e poder.

Para compreender esse cenário, a noção de reificação, desenvolvida por Georg Lukács e posteriormente retomada por Axel Honneth, oferece uma chave interpretativa importante. Reificar significa transformar pessoas em coisas, reduzir sujeitos a objetos manipuláveis. No caso das mulheres, essa lógica aparece na hipersexualização constante, na naturalização do assédio e na tentativa recorrente de controlar sua sexualidade, sua autonomia e sua presença nos espaços públicos e institucionais. A violência extrema é apenas a expressão final de um processo cotidiano de desumanização.

O feminicídio, portanto, não surge do nada. Ele é o ponto final de um ciclo que inclui violência psicológica, agressões físicas, coerção sexual e controle social sobre os corpos femininos. O Brasil possui instrumentos jurídicos relevantes para enfrentar essa realidade, como a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) e a Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015). Ainda assim, os dados mostram que as estruturas sociais que sustentam a desigualdade de gênero continuam operando. Reconhecer a reificação do corpo das mulheres como um mecanismo histórico de dominação é passo essencial para compreender por que, mesmo diante de avanços legais, a violência persiste como forma de disciplinar e punir quem desafia hierarquias profundamente enraizadas na sociedade brasileira.

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Despeço-me de julho com ainda mais certeza: a transformação se dá em movimento.